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Introdução
Bebidas muito quentes fazem mal? Essa pergunta ganhou ainda mais relevância após um grande estudo publicado em 2026 analisar a relação entre a temperatura de consumo de bebidas e o risco de câncer de esôfago. Café, chá e chimarrão estão entre os exemplos mais conhecidos, mas a questão central apontada pelas evidências não é necessariamente qual bebida está na xícara — e sim a temperatura em que ela é consumida.
Mas existe uma diferença importante entre apreciar uma bebida quente e consumi-la em uma temperatura tão elevada que o calor possa agredir repetidamente os tecidos do esôfago.
Essa questão ganhou nova atenção em setembro de 2026, quando um estudo publicado no International Journal of Cancer analisou dados de quase 1 milhão de adultos no Reino Unido. Os pesquisadores encontraram uma associação relevante entre a preferência por bebidas muito quentes e o risco de um tipo específico de câncer de esôfago.
A descoberta rapidamente produziu manchetes relacionando café e chá ao câncer. Entretanto, interpretar o estudo dessa maneira pode levar a uma conclusão equivocada.
O principal ponto de atenção não parece ser simplesmente o que existe dentro da xícara, mas a temperatura em que a bebida é consumida.
Essa distinção é fundamental.
Café, chá e chimarrão entram nessa discussão porque são bebidas tradicionalmente consumidas quentes em diferentes partes do mundo. Isso não significa que precisem ser abandonados.
Neste artigo, vamos entender o que o novo estudo realmente descobriu, por que temperaturas muito elevadas podem prejudicar o esôfago, o que significam os limites de 60 °C e 65 °C, qual é a diferença entre risco relativo e risco absoluto e, principalmente, como continuar apreciando uma bebida quente sem confundir prazer com temperatura excessiva.
O que o novo estudo descobriu sobre bebidas muito quentes?
Publicado em setembro de 2026 no International Journal of Cancer, o estudo Hot Drinks and Oesophageal Cancer: Prospective Analyses in Around 1 Million UK Adults reuniu dados de duas grandes populações britânicas: o Million Women Study e o UK Biobank.
No total, foram analisados 977.282 participantes.
O acompanhamento médio foi de aproximadamente 14,2 anos no Million Women Study e 11,1 anos no UK Biobank.
Durante esse período foram registrados 2.348 casos de câncer de esôfago.
Eles se dividiram principalmente em:
- 1.045 casos de carcinoma de células escamosas;
- 1.303 casos de adenocarcinoma.
Essa separação é muito importante porque os pesquisadores não encontraram exatamente o mesmo resultado para os dois tipos de câncer.

O resultado que chamou a atenção
Quando os pesquisadores compararam pessoas que declaravam preferir suas bebidas “muito quentes” com aquelas que as preferiam “mornas”, encontraram um risco relativo aproximadamente 3,17 vezes maior de carcinoma de células escamosas do esôfago no primeiro grupo.
O intervalo de confiança de 95% informado pelos pesquisadores foi de 2,49 a 4,03.
Para o adenocarcinoma, entretanto, não apareceu associação equivalente: o risco relativo encontrado foi de 0,92, com intervalo de confiança entre 0,76 e 1,12.
Portanto, dizer simplesmente que “bebidas muito quentes triplicam o risco de câncer” perde uma informação fundamental.
A associação observada foi particularmente com um subtipo específico: o carcinoma de células escamosas do esôfago.
A frequência de consumo também entrou na pesquisa
Os pesquisadores não analisaram somente a preferência de temperatura.
Também investigaram a frequência de consumo de bebidas quentes, principalmente chá e café.
Os resultados indicaram que consumir muitas bebidas quentes diariamente também poderia ter importância. No estudo, o consumo de seis ou mais bebidas quentes por dia permaneceu associado a aumento do risco de carcinoma de células escamosas mesmo após ajustes estatísticos relacionados à temperatura.
Isso levanta uma questão importante:
o risco pode envolver não apenas quão quente está a bebida, mas também quantas vezes o esôfago é exposto ao calor ao longo do dia.
Café, chá e chimarrão causam câncer?
Não é essa a conclusão que devemos tirar dessas evidências.
Essa provavelmente é a distinção mais importante de todo o artigo.
Café, chá e chimarrão aparecem nas pesquisas porque são bebidas habitualmente consumidas quentes em diferentes populações.
Mas o elemento que une esses hábitos não é necessariamente a composição da bebida.
É o calor.
O próprio Instituto Nacional de Câncer, o INCA, explica que o fator determinante nessa relação é a alta temperatura de consumo, independentemente do tipo de bebida.
Por isso, seria incorreto transformar a evidência científica em frases como:
“café causa câncer”;
“chá causa câncer”;
ou
“chimarrão causa câncer”.
Uma formulação mais adequada é:
o consumo frequente de bebidas em temperaturas muito elevadas está associado ao aumento do risco de câncer de esôfago, especialmente do carcinoma de células escamosas.
Essa diferença pode parecer pequena, mas muda completamente a interpretação.
Por que bebidas muito quentes podem prejudicar o esôfago?
Para compreender a possível relação, precisamos acompanhar rapidamente o caminho de um gole.
Depois de passar pela boca e pela garganta, a bebida atravessa o esôfago, um tubo muscular que conduz alimentos e líquidos até o estômago.
A superfície interna desse órgão é revestida por uma mucosa.
Quando ingerimos algo excessivamente quente, essa mucosa entra diretamente em contato com o calor.

O efeito do calor sobre as células
A principal hipótese biológica envolve a chamada injúria térmica.
Temperaturas excessivamente elevadas podem provocar danos às células que revestem o esôfago.
Nosso organismo possui mecanismos naturais de reparação. O problema potencial aparece quando agressões térmicas se repetem continuamente durante longos períodos.
As células são lesionadas, precisam se regenerar e novamente são submetidas ao calor.
A IARC considera biologicamente plausível que esse processo de lesão térmica repetida contribua para o desenvolvimento do câncer de esôfago.
Por que a repetição importa?
Uma queimadura acidental com um gole muito quente não deve ser interpretada como equivalente ao hábito investigado nos estudos epidemiológicos.
A preocupação científica está principalmente na exposição habitual e repetida.
Uma pessoa que consome várias bebidas excessivamente quentes todos os dias durante muitos anos apresenta um padrão de exposição completamente diferente de alguém que ocasionalmente bebe algo quente demais.
Essa é outra razão para evitar interpretações alarmistas dos resultados.
Afinal, o que significa uma bebida “muito quente”?
Aqui surge um problema interessante.
“Quente” é uma sensação.
O que parece muito quente para uma pessoa pode ser tolerável para outra.
Por isso, os pesquisadores e instituições de saúde precisam trabalhar com referências objetivas.
A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, a IARC, vinculada à Organização Mundial da Saúde, considera como “muito quentes” as bebidas consumidas acima de 65 °C.
Em 2016, a agência classificou o consumo de bebidas muito quentes como provavelmente carcinogênico para humanos — Grupo 2A.
Mas essa classificação precisa ser compreendida corretamente.
O que significa “provavelmente carcinogênico”?
A classificação da IARC descreve a força das evidências científicas de que uma exposição pode causar câncer.
Ela não informa automaticamente qual é o tamanho do risco individual.
Também não significa que uma pessoa que tomou uma xícara acima de 65 °C desenvolverá câncer.
E não significa que exista um número determinado de xícaras capaz de provocar a doença.
A própria IARC esclarece que a classificação demonstra a existência de uma relação considerada provável, mas não permite determinar quantas bebidas muito quentes seriam necessárias para desencadear câncer.
Portanto, 65 °C não deve ser interpretado como um interruptor biológico que transforma instantaneamente uma bebida em cancerígena.
É uma referência utilizada para caracterizar a exposição a bebidas muito quentes.
65 °C ou 60 °C: qual temperatura devemos considerar?
Aqui existem dois números que podem facilmente causar confusão.
A IARC utiliza acima de 65 °C para definir bebidas muito quentes.
Já o INCA recomenda que, para minimizar os riscos, bebidas quentes sejam consumidas em temperatura inferior a 60 °C.
Essas duas informações não são contraditórias.
Uma representa uma referência utilizada na avaliação do risco; a outra funciona como orientação preventiva.
Podemos resumir assim:
65 °C ou mais: temperatura que deve ser evitada no consumo habitual de bebidas quentes.
Abaixo de 60 °C: recomendação prática apresentada pelo INCA para o consumo.
A margem entre os dois números evita a ideia de que precisamos beber exatamente no limite.

Temperatura de preparo não é temperatura de consumo
Essa diferença merece atenção especial no Grão Nobre porque estamos falando também com leitores interessados em café.
A temperatura da água utilizada para preparar uma bebida não é necessariamente a temperatura em que ela será ingerida.
São dois momentos diferentes.
Água bastante quente pode ser utilizada durante a extração do café ou no preparo de determinados tipos de chá.
Depois que a bebida chega à xícara, entretanto, começa a perder calor para o recipiente e para o ambiente.
Portanto, uma recomendação relacionada à temperatura de consumo não deve ser automaticamente transformada em uma regra sobre a temperatura de preparo do café.
Reduzir demais a temperatura da água durante a extração pode alterar o resultado sensorial.
A solução preventiva pode ser muito mais simples:
prepare corretamente e espere a bebida esfriar antes de beber.
Café muito quente faz mal?
O café entra naturalmente nessa discussão porque é consumido diariamente por milhões de pessoas e frequentemente chega à xícara em temperatura elevada.
Mas precisamos novamente separar duas questões:
o café
e
a temperatura do café.
A avaliação da IARC não classificou o café em si da mesma maneira que classificou o consumo de bebidas muito quentes.
No contexto que estamos discutindo, a preocupação é principalmente com a exposição térmica do esôfago.
Isso significa que as evidências não devem ser interpretadas como uma recomendação para abandonar o café.
Para quem gosta de beber café muito quente, a mudança necessária pode ser surpreendentemente pequena:
esperar um pouco antes do primeiro gole.
Se a bebida está tão quente que causa ardência ou sensação de queimadura na boca, não existe benefício em tentar suportar aquela temperatura.
Chá muito quente também merece atenção?
Sim.
O chá aparece em várias pesquisas realizadas sobre temperatura e câncer de esôfago, especialmente em regiões onde existe o hábito cultural de consumi-lo muito quente.
Esse histórico é importante porque mostra que a associação não depende exclusivamente do café.
Estudos realizados em diferentes populações observaram resultados compatíveis com a hipótese de que temperaturas elevadas aumentam o risco de carcinoma de células escamosas do esôfago.
E isso reforça novamente nosso ponto central:
o denominador comum não é necessariamente a planta utilizada para produzir a bebida. É a temperatura.
E o chimarrão?
No Brasil, falar sobre bebidas muito quentes sem incluir o chimarrão deixaria uma parte importante da discussão de fora.
O mate possui forte presença cultural principalmente no Sul do Brasil e também é tradicional em outros países da América do Sul.
Há décadas ele aparece em pesquisas relacionadas ao câncer de esôfago.
A IARC explica que o mate tradicionalmente pode ser consumido em temperaturas muito elevadas e que estudos realizados na América do Sul ajudaram a investigar se o risco observado estava relacionado à própria erva ou à temperatura da bebida.
As evidências levaram a uma distinção importante.
Mate que não é consumido muito quente não recebeu a mesma classificação das bebidas muito quentes.
Isso reforça a interpretação de que a temperatura desempenha papel fundamental.
Por que o chimarrão recebe atenção especial no Brasil?
O INCA menciona explicitamente o chimarrão em suas orientações sobre câncer de esôfago.
Uma das razões está no próprio método tradicional de consumo.
A bebida pode ser ingerida repetidamente por meio da bomba, fazendo com que o líquido quente entre em contato com o esôfago várias vezes durante uma mesma sessão.
Isso não significa abandonar a tradição.
Significa apenas que a temperatura da água também merece fazer parte do ritual.

O que significa dizer que o risco foi três vezes maior?
Manchetes que afirmam que algo “triplica o risco de câncer” chamam imediatamente a atenção.
Mas existe uma diferença fundamental entre risco relativo e risco absoluto.
No estudo de 2026, o valor 3,17 representa uma comparação entre grupos.
Os pesquisadores compararam a ocorrência do carcinoma de células escamosas entre pessoas que preferiam bebidas muito quentes e aquelas que as preferiam mornas.
Um exemplo simples de risco relativo
Imagine uma doença hipotética que ocorra em 1 pessoa a cada 10 mil em determinado grupo.
Em outro grupo, ela ocorre em 3 pessoas a cada 10 mil.
O segundo grupo apresenta aproximadamente três vezes o risco relativo.
Mas isso não significa que 30%, 50% ou 100% das pessoas do segundo grupo terão a doença.
O risco absoluto continuaria baixo.
Esse exemplo é apenas didático e não representa as taxas observadas no estudo.
Ele serve para demonstrar por que “risco três vezes maior” não deve ser interpretado como “uma chance enorme de desenvolver câncer”.
O tamanho do estudo ajuda a colocar o resultado em perspectiva
Entre os 977.282 participantes, ocorreram 2.348 cânceres de esôfago durante os anos de acompanhamento.
Desses, 1.045 eram carcinomas de células escamosas.
Portanto, existe uma associação relevante para prevenção e saúde pública, mas os números não justificam transformar uma recomendação preventiva em pânico individual.
Quanto mais bebidas quentes por dia, maior o risco?
A frequência parece fazer parte da equação.
No estudo de 2026, consumir seis ou mais bebidas quentes por dia esteve associado a um risco 71% maior de carcinoma de células escamosas mesmo após o ajuste pela temperatura de preferência.
Esse resultado sugere que a exposição repetida também merece consideração.
Se o mecanismo envolve agressão térmica, faz sentido investigar conjuntamente:
temperatura;
frequência;
volume;
forma de consumo;
e duração do hábito ao longo dos anos.
Ainda assim, não existe uma fórmula simples capaz de dizer que determinado número de xícaras inevitavelmente produzirá câncer.
A própria IARC alerta que os dados disponíveis não permitem estabelecer algo desse tipo.
Quanto tempo devemos esperar antes de beber?
Seria muito conveniente existir uma regra universal:
“espere exatamente X minutos”.
Na prática, isso não funciona para todas as situações.
A velocidade com que uma bebida esfria depende da temperatura inicial, quantidade de líquido, material da xícara, tamanho do recipiente, temperatura do ambiente, presença de tampa e outros fatores.
O INCA, entretanto, oferece uma orientação doméstica bastante útil.
A recomendação é consumir bebidas quentes abaixo de 60 °C e, no preparo descrito pelo instituto, aguardar aproximadamente cinco minutos antes de colocar o líquido na garrafa térmica ou consumi-lo.
O mais importante é entender o princípio, e não transformar cinco minutos em uma regra matemática para qualquer xícara.
Se estiver quente demais, espere.
É necessário usar termômetro para tomar café, chá ou chimarrão?
Não precisamos transformar uma xícara de café em uma experiência de laboratório.
Um termômetro culinário pode ser interessante para quem deseja descobrir, na prática, como uma bebida a 60 °C é percebida.
Isso pode ajudar principalmente pessoas acostumadas a beber líquidos extremamente quentes.
Depois de criar essa referência, medidas simples são mais importantes:
aguardar um pouco depois do preparo;
não insistir quando o primeiro gole provoca queimadura;
permitir que a bebida perca calor naturalmente;
e evitar transformar a tolerância ao calor em uma espécie de desafio.
A recomendação não é tomar tudo frio.
É simplesmente evitar temperaturas excessivas.
Uma bebida abaixo de 60 °C ainda pode ser quente?
Sim.
Essa talvez seja uma das informações mais tranquilizadoras para quem aprecia café, chá ou chimarrão.
Evitar temperaturas excessivamente elevadas não significa substituir uma bebida quente por uma bebida fria.
Existe uma ampla faixa entre esses extremos.
A recomendação do INCA de consumo abaixo de 60 °C permite que a bebida continue sendo percebida como quente e agradável.
Portanto, não estamos diante de uma escolha entre:
café fervendo
ou
café frio.
O objetivo é encontrar uma temperatura confortável sem manter o hábito de ingerir líquidos excessivamente quentes.
Por que o câncer de esôfago merece atenção?
O câncer de esôfago pode apresentar diferentes características.
Dois dos principais tipos são:
carcinoma de células escamosas;
adenocarcinoma.
Essa distinção é importante porque o estudo de 2026 encontrou associação entre bebidas muito quentes e o primeiro tipo, mas não encontrou resultado equivalente para adenocarcinoma.
Portanto, seria cientificamente impreciso escrever que bebidas muito quentes simplesmente “triplicam qualquer câncer de esôfago”.
No Brasil, o INCA estima 11.390 novos casos de câncer de esôfago por ano no triênio 2026–2028, sendo 8.750 em homens e 2.640 em mulheres.
A prevenção, portanto, merece atenção.
Mas a temperatura das bebidas é apenas uma parte dessa discussão.
Bebidas muito quentes são o único fator de risco?
Não.
O câncer é uma doença multifatorial e não deve ser reduzido a um único comportamento.
No caso do câncer de esôfago, outros fatores possuem grande importância.
A IARC destaca, por exemplo, tabagismo e consumo de álcool entre importantes causas da doença.
Isso significa que evitar bebidas excessivamente quentes deve ser entendido como uma medida de redução de risco, e não como garantia de que uma pessoa jamais desenvolverá câncer de esôfago.
Da mesma maneira, consumir bebidas abaixo de 60 °C não elimina outros fatores de risco.
O que o estudo ainda não consegue responder?
Um estudo com quase um milhão de participantes é impressionante, mas tamanho não elimina todas as limitações.
Compreender essas limitações faz parte de uma leitura científica responsável.
A temperatura foi informada pelos próprios participantes
Uma das limitações importantes é que a preferência de temperatura foi autorreferida.
As pessoas classificaram suas preferências em categorias como morna, quente ou muito quente.
Mas a percepção de temperatura varia.
Aquilo que uma pessoa considera muito quente pode não corresponder exatamente ao que outra pessoa entende pela mesma expressão.
Portanto, os pesquisadores não mediram com um termômetro cada xícara consumida por quase um milhão de pessoas durante mais de uma década.
Associação não significa automaticamente causalidade
O estudo é observacional.
Esse tipo de pesquisa é extremamente valioso para identificar associações em grandes populações, mas não possui o mesmo desenho de um experimento controlado.
Naturalmente, seria antiético pedir que milhares de pessoas bebessem líquidos potencialmente prejudiciais durante anos apenas para observar quantas desenvolveriam câncer.
Por isso, a ciência precisa reunir diferentes tipos de evidência:
estudos populacionais;
pesquisas experimentais;
mecanismos biológicos;
resultados encontrados em diferentes países;
e consistência entre pesquisas realizadas ao longo do tempo.
É justamente a combinação dessas evidências que levou a IARC a classificar o consumo de bebidas muito quentes como provavelmente carcinogênico para humanos.
Então precisamos parar de tomar café, chá ou chimarrão?
Não é essa a mensagem das evidências apresentadas neste artigo.
A mudança preventiva proposta é muito menos radical.
Não precisamos eliminar o café da manhã.
Não precisamos abandonar o chá.
E não precisamos transformar o chimarrão em vilão.
Precisamos prestar atenção à temperatura.
Se a bebida está excessivamente quente, podemos simplesmente esperar.
Esse pequeno intervalo entre preparar e beber reduz a exposição térmica sem eliminar sabor, aroma, tradição ou o prazer associado à bebida.
No café, inclusive, o resfriamento gradual pode revelar características sensoriais que são mais difíceis de perceber quando a bebida está excessivamente quente.
Perguntas frequentes sobre bebidas muito quentes
Bebidas acima de 65 °C causam câncer?
A IARC classifica o consumo de bebidas acima de 65 °C como provavelmente carcinogênico para humanos, com evidências relacionadas ao câncer de esôfago. Isso não significa que uma exposição isolada necessariamente provoque câncer. A preocupação envolve o consumo habitual de bebidas muito quentes.
Qual é a temperatura recomendada para beber café?
No contexto de prevenção do câncer de esôfago, o INCA recomenda consumir bebidas quentes em temperatura inferior a 60 °C.
Café muito quente causa câncer?
Não é correto dizer simplesmente que café muito quente “causa câncer” em todas as pessoas. Estudos observacionais encontraram associação entre o consumo habitual de bebidas muito quentes e maior risco de carcinoma de células escamosas do esôfago.
Chá muito quente faz mal?
O consumo frequente de chá em temperaturas muito elevadas também aparece associado ao aumento do risco de câncer de esôfago em estudos epidemiológicos. O fator de interesse é principalmente a temperatura de consumo.
Chimarrão pode aumentar o risco de câncer de esôfago?
O INCA inclui o chimarrão entre as bebidas que merecem atenção quando consumidas a 65 °C ou mais. A recomendação preventiva é consumi-lo em temperaturas inferiores a 60 °C.
Preciso parar de beber café?
As evidências discutidas aqui não representam uma recomendação para abandonar o café. O objetivo é evitar consumi-lo em temperaturas excessivamente elevadas.
É necessário tomar café frio?
Não. Uma bebida abaixo de 60 °C ainda pode ser quente. A recomendação é evitar temperaturas excessivas, e não necessariamente consumir bebidas frias.
Quanto tempo devo esperar depois de preparar a bebida?
Não existe um tempo universal porque o resfriamento depende do recipiente, volume, temperatura inicial e ambiente. O INCA apresenta como orientação prática esperar em torno de cinco minutos em determinadas condições de preparo e recomenda o consumo abaixo de 60 °C.
Como saber se a bebida está quente demais sem termômetro?
A percepção não substitui uma medição precisa, mas uma bebida que provoca ardência ou sensação de queimadura claramente merece mais tempo para esfriar. Quem quiser criar uma referência pessoal pode medir algumas vezes a bebida com um termômetro culinário.
CONCLUSÃO
Bebidas muito quentes fazem mal? A temperatura é a principal questão
O estudo publicado em 2026 acrescentou uma peça importante a uma investigação científica que já dura décadas.
Depois de analisar 977.282 adultos, os pesquisadores encontraram uma associação aproximadamente três vezes maior entre a preferência por bebidas muito quentes e o risco de carcinoma de células escamosas do esôfago, quando comparada à preferência por bebidas mornas.
Mas transformar esse resultado na afirmação de que café ou chá “causam câncer” seria uma interpretação inadequada.
O ponto central é a temperatura.
É justamente por isso que café, chá e chimarrão podem aparecer na mesma discussão apesar de serem bebidas completamente diferentes.
A IARC utiliza temperaturas acima de 65 °C como referência para bebidas muito quentes, enquanto o INCA recomenda que o consumo seja realizado abaixo de 60 °C.
A recomendação prática, portanto, é simples.
Você não precisa abandonar sua xícara de café pela manhã.
Não precisa retirar o chá da rotina.
E não precisa abrir mão da roda de chimarrão.
Quando a bebida estiver quente demais, espere.
Alguns minutos podem ser suficientes para preservar o ritual, o aroma e o sabor enquanto se evita uma exposição desnecessária do esôfago a temperaturas excessivamente elevadas.
No fim, a melhor xícara talvez não seja aquela que conseguimos beber mais quente.
É aquela que podemos apreciar com calma.
Para conhecer outras pesquisas sobre os efeitos da bebida no organismo, consulte também nosso guia sobre Ciência e Saúde do Café.
Para explorar outros temas sobre história, produção, cultura, métodos e ciência, visite também o nosso Centro de Conhecimento do Café.
Fontes científicas e institucionais consultadas
Papier K, Gaitskell K, Floud S, Reeves GK. Hot Drinks and Oesophageal Cancer: Prospective Analyses in Around 1 Million UK Adults. International Journal of Cancer. Publicado em setembro de 2026.
International Agency for Research on Cancer — IARC/WHO. Drinking Coffee, Mate, and Very Hot Beverages. IARC Monographs, Volume 116.
Instituto Nacional de Câncer — INCA. Orientações sobre consumo e preparo de bebidas muito quentes e prevenção do câncer de esôfago.
International Agency for Research on Cancer — IARC. Cancer of the Oesophagus and Drinking Very Hot Beverages — Fact Sheet.
Instituto Nacional de Câncer — INCA. Câncer de esôfago: informações para população e profissionais de saúde.
